segunda-feira, 4 de abril de 2016

A fraude do Evangelho de Felipe



Verifiquei que aqui no Blog houve uma postagem sobre o Evangelho de Tomé,  o qual foi chamado carinhosamente de “Bloco de Anotações de São Tomé”. 

Muito bem colocado. Pois, muito mais do que uma narrativa, o livro achado enterrado nas areias do deserto de Nag Hammadi, se caracteriza muito mais como uma coleção de frases soltas demonstrando a preocupação do possível autor de memorizar as frases do grande mestre, aquelas as quais "ele não poderia esquecer". 

Como cientista fui instigado a mostrar um posicionamento. Por estar pesquisando sobre o tema, eu foco geralmente o tema g0y (g-zero-y) e a heteroflexilidade na ciência. Mas, vou mergulhar um pouco aqui nesse tema mais polêmico e mostrar também um lado mais racional/científico. Não posso negar que essas questões são realmente instigantes, e já toquei em assunto relativamente correlato na minha coluna em outros canais da web, quando resgatei os mandamentos do sexo (o que é certo e errado no sexo, segundo os preceitos judaicos, com valores de comportamento que hoje são universais), que o M. Fratman também retratou aqui. Então não fugirei, vou aproveitar o espaço para falar um pouco sobre o assunto dos evangelhos perdidos e achados - mais conhecidos também como evangelhos apócrifos.


Como foi retratado apenas o Evangelho de Tomé e sua coleção de ditos... Em decorrência disso, na lógica de algumas pessoas pode ter ficado uma lacuna. Porque citar apenas Tomé, se foi encontrado 52 textos antigos em Nag Hammadi, conforme mostrado no vídeo/documentário. 

E claro, uma das motivações é que anos atrás uma obra ficou muito conhecida, baseada em um desses 52 escritos. O CÓDIGO DA VINCI. Talvez você não saiba, mas um dos evangelhos apócrifos foi a principal inspiração para a obra, nesse caso foi: O Evangelho de Felipe.
 
Estudos mostram por datação de carbono que é possível que os textos atribuídos a Tomé datem do ano 40 de nossa Era, ou seja apenas dez anos após a crucificação. Muito próximo dos acontecimentos de fato e surpreendentemente vinte anos antes da escrita de Marcos, que até então é tido como o primeiro Evangelho a ser escrito. 

Mas, deixando os testes do Carbono14 de lado; além da questão temporal, a questão central é que a reunião de ditos atribuídos a Tomé, pelo seu próprio estado de conservação, são mais confiáveis que os demais textos encontrados.

Esse é o papiro que traz a coleção de ditos, chamado de Evangelho de São Tomé:



A foto seguinte é do original do chamado Evangelho de Felipe. Vejamos bem, nesse caso pouca coisa se salvou ao longo dos tempos:


E, o mais espantoso é que, o trecho mais difundido da obra foi retirado desta “página” do papiro pertencente à atual Biblioteca de Nag Hammadi:


E apenas para “os mais encrenqueiros” que porventura possam querem vincular o escrito aqui a paganismo, gnosticismo, a guerra religiosa ou qualquer coisa assim, note que esses temas não são “invenções” e são discutidos de forma avançada em sites católicos como: http://blog.cancaonova.com/felipeaquino/2008/05/19/o-evangelho-de-felipe/.


Agora, vamos direto à frase mais difundida desse Evangelho Apócrifo, que leva a defender Teses indefensáveis, como a de que:
- O seu discípulo mais amado tinha sido uma mulher, Maria Madalena, sua consorte. 
 Essa hipótese é sustentada com base no Evangelho de Filipe que menciona:

"E a companheira do Salvador foi Maria Madalena. Mas Cristo amava-a mais do que todos os discípulos e costumava beijá-la muitas vezes na boca. Os demais discípulos ficaram ofendidos. Disseram-lhe:" Por que que você a ama mais do que todos nós? O Salvador respondeu e disse-lhes: "Por que, eu não vos amo como eu a amo?"

OK. 
O papiro encontrado pode não ser falso. Mas essa frase é falsa e cheia de intencionalidade gnóstica. Vejamos a verdade, que já consta inclusive, não apenas em rodas de especialistas, mas também em sites de amplo acesso como o Wikipédia (https://pt.wikipedia.org/wiki/Evangelho_de_Filipe ).

   => O texto original do papiro como se nota, está muito fragmentado. Eis as palavras encontradas e as suposições que estão entre colchetes:
E a companheira do [Salvador era Mar]ia Ma[da]lena. [Cristo amou] M[aria] mais do que [todos] os disc[ípulos, e costumava] beijá-la [frequentemente] na [boca]. Os demais [discípulos se ofendiam com isso e expressaram seu descontentamento]. Eles disseram "Por que você a ama mais do que a nós?". O Salvador respondeu-lhes, "Por que, eu não vos amo como a amo?".

— Atribuído a Filipe, no Evangelho de Filipe.


Entenderam o jogo?

E a companheira do ______________ ia Ma__lena. _________ M_____ mais do que _____ os disc______________ beijá-la ________ na _______. Os demais _________________ ________________________. Eles disseram "Por que você a ama mais do que a nós? (...)


Quer brincar de completar frases? 
   Nós podemos tranquilamente fazer também outras versões para o mesmo texto, encontrado no evangelho perdido.

E a companheira do cobrador de impostos de Samaria Madalena. Não era aparentemente digna, mas revelou-se seguidora até, mais do que vários dos discípulos, e vários se recusaram a beijá-la na época. Os demais repreenderam essa atitude e questionaram. Jesus concordou com a não discriminação.  Eles disseram “porque você a ama mais do que a nós?”. O Salvador respondeu-lhes, “Por que, eu não vos amo como a amo?”.



Os mais entusiastas do livro Código da Vinci ainda afirmam que o pedaço do papiro que contém o trecho que cita um beijo se salvou. Esse trecho estaria intacto. E, então, que beijo seria esse! Segundo Karen King, respeitada historiadora da Universidade de Harvard (EUA), os cristãos da época se cumprimentam com beijos para transmitir a sensação de que eram uma família espiritual. 

Os cristãos primitivos herdaram o costume espalhado entre os Judeus da época em que era bem visto que o homem beijasse outro homem na cara, na testa, nos ombros ou nas costas da mão, já o beijo nos lábios de uma mulher, pelo menos em público era causa de escândalo e, em muitas ocasiões, de repúdio.

Não dá para brincar com coisas sérias.  O Evangelho de Felipe, apócrifo de origem gnóstica, foi recentemente publicado em português, com os comentários de Jean Yves Leloup. Este autor endossa a hipótese a qual Jesus se casou com Maria Madalena, não levando em conta o caráter não cristão do texto; que este é de data tardia (século IV) e que recorre ao pseudônimo do Apóstolo São Filipe. Como dito, há uma diferença em relação ao encontrado em relação a Tomé (que data do século I). Não há um vestígio de tal casamento em toda a tradição cristã nem em pesquisas de historiadores sérios – o que já seria suficiente para lançar suspeita sobre a veracidade da hipótese apresentada por Leloup. Acontece que a pseudo história baseada nos papiros se espalhou e foi também reforçada no Código da Vinci de Dan Brown – Fruto da imaginação? Interesses místicos?

A questão é que pelo Papiro de Nag Hammadi e pelo que foi encontrado de fato escrito nele não há como realizar esse tipo de afirmação. E na verdade, não há como realizar é quase nenhum tipo de afirmação.




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